Em 1907 as tecnologias não eram o forte, pelo que Maria Montessori pouco aflorou esta possibilidade, contudo a AMI (Associação Montessori Internacionale) e AMA (Associação Montessori Americana) são firmes na decisão de que é importante limitar o acesso das crianças à tecnologia.

E se pensarmos em termos práticos qual o papel de uma criança perante um ecrã de televisão, tablet ou telemóvel? Que tipo de comunicação existe? Que interação? Que experiência manipulativa ao nível do desenvolvimento motor?

Por vezes a abstração e alheamento do mundo envolvente é tal que nem ouvem quem está ao lado a tentar dizer-lhes algo! Será isto saudável?

Hoje em dia ouvimos falar frequentemente de obesidade infantil, dificuldades ao nível da motricidade fina, falta de competências sociais e um grande isolamento social….. será que o número de horas excessivo imóvel em frente a um equipamento eletrónico e a consequente falta de brincadeira no exterior e o exercício da resolução de conflitos podem estar interligados?

Para os menores de 2 anos há estudos que realçam a importância do contacto com outros, de forma a desenvolver a linguagem e outras capacidades cognitivas, sociais e emocionais. E entre os 2 e os 6 anos o efeito negativo das tecnologias tem que ver essencialmente com a falta de tempo para atividades manipulativas e exercício físico.

Maria Montessori fala-nos dos primeiros 6 anos como os “anos dourados”, de uma criança dotada de uma Mente Absorvente, referindo-se inclusivamente “às mãos como veículo da inteligência”, pois é através da exploração, manipulação, comunicação, contacto com outros, que as conexões neuronais se irão proporcionar criando assim “autoestradas do conhecimento” e construindo o que referem os neurocientistas de “arquitetura cerebral”.

Assim é claro perceber a importância do manusear, sentir, explorar no processo de descoberta e aprendizagem.

A criança aprende com todo o seu corpo, com todos os sentidos, a um ritmo natural, explorando um sentido de cada vez… o que a televisão assim como os equipamentos eletrónicos no geral produz é um excesso de estímulos, informação, luz, cor, movimento, o que coloca a criança numa postura de absorção passiva, sem filtro, sem manipulação, e na maior parte das vezes atendendo ao excesso de informação, num stress e agitação desmesurados!

Álvaro Bilbao, neuropsicólogo, fala-nos da importância de “ajudar as crianças a desenvolver estas conexões neuronais” que é precisamente a definição que dá de educar. Podem ver a conferência pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=oOclJjLVCKY&feature=youtu.be.

Este fala-nos também das dificuldades de atenção associadas ao excesso e intensidade de estímulos produzidos pela televisão bem como à procura de satisfação rápida e respostas imediatas. Isto faz com que as atividades menos aceleradas ou intensas deixem de ser “interessantes” ou reduz o tempo de atenção e concentração em tarefas em que a intensidade de estímulo seja inferior.

Já imaginaram um professor a competir com a quantidade de estímulos existentes numa televisão? Claro que a educação tradicional tem de mudar e acompanhar a evolução dos tempos e as necessidades das crianças, mas é uma competição desequilibrada!

Contudo este ritmo acelerado deixa cada vez menos tempo para desfrutar cada atividade, saborear as conquistas e aprendizagens, viver a alegria da partilha e aprender a viver o presente.

Não é à toa que cada vez mais se fala em desacelerar, em mindfullness, em meditação, em brincar na natureza e em tempo em família. Pois o que se pretende é contrariar o uso de equipamentos eletrónicos como “babysitter”, crianças com menos destreza ao nível e motricidade fina e grossa e promover a satisfação através das pequenas coisas!

E agora o grande desafio… como promover um equilíbrio entre o mundo real e o tecnológico!!!

Pois até aos 3 anos não há de todo necessidade de recurso à tecnologia, e até aos 6 este uso deveria ser controlado pelos adultos, filtrado e acompanhado sempre em doses moderadas.

Nós cá por casa há 7 anos que não temos televisão, e a verdade é que brincamos mais, temos tempo para conversar, sintonizar-nos, cantar, e há todo um trabalho em equipa ao nível de toda a dinâmica de gestão do dia a dia. Todos somos partícipes em tudo o que à família diz respeito, e cada um colabora na medida das suas capacidades.

Não, não é necessário ser tão radical, mas lanço o desafio de desligar a televisão uma semana e vão ver o quão maravilhoso pode ser 🙂

Alinham?

Boa semana,

Joana Rebelo

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