No momento em que sabemos que vamos ser mães, os nossos interesses mudam. Foi também o que aconteceu comigo. Na altura, já conhecia a Isabel porque temos amigos em comum, mas só naquele momento as suas partilhas sobre a forma como educava a filha Ana me deixaram deliciada! O sentido de exploração, a autonomia e a consciência que a Ana demonstrava em tão tenra idade fizeram com que ficasse uma espectadora assídua do facebook da Isabel! Quando lhe pedi que partilhasse no nosso blog a sua experiência, sabia que o iria fazer com clareza e a experiência de quem tem vivido Montessori em família, com o tempo e a o respeito necessários pelas nossas crianças.

O que nos podes contar sobre ti, sobre a tua família e onde vives?

Sou a Isabel, casada com o Pedro e temos duas filhas, a Ana com 2 anos e meio e a Olívia com 6 meses. Vivemos há 5 anos em Atlanta, na Georgia. Estive a trabalhar a tempo inteiro até nascer a Olívia. Agora estou em casa com as duas filhas. Há dias que correm muito bem, e há dias para esquecer! Ser mãe a tempo inteiro é um desafio grande porque estamos a trabalhar 24 horas por dia. Planear a semana com actividades e ter algum tempo livre para mim tem sido a melhor solução.

Quais as principais diferenças que encontraste pelo facto de viveres nos EUA?

Os EUA são um país muito diferente e, no caso de quem tem filhos, isso vê-se logo pela ausência de licença de maternidade paga, pela quase inexistência de infantários públicos e pela assustadora tabela de preços das maternidades. Por outro lado, a acessibilidade a uma enorme variedade de coisas para crianças e bebés em segunda mão é incomparável. Compramos quase tudo em segunda mão, inclusivé a maravilhosa torre de aprendizagem e as fraldas de pano. E a Amazon envia tudo para casa em 2 dias!

Outra grande diferença está na cidade onde moramos: Atlanta é uma cidade dominada por carros. Não se anda a pé. Isto implica que para dar um passeio a pé, tem de se ir de carro para um local onde se possa andar a pé! Ir para o parque ao fim do dia é uma tortura por causa do trânsito.

Por fim, como não temos os avós aqui por perto para ajudar com as crianças, elas estão sempre por nossa conta. A verdade é que temos ido a Portugal várias vezes (a Ana já foi a Portugal 6 vezes!) e os avós já vieram a Atlanta. Felizmente, temos aqui alguns amigos muito próximos que são como família!

Como e quando é que conheceste Montessori?

Quando estava grávida da Ana queria aprender a educar uma criança e tinha uma imagem mental daquilo que queria ser como mãe. Encaro a educação das nossas filhas como uma profissão: frequenta-se a faculdade para se aprender a ser médico ou ser professor e acredito que ser pai ou mãe deve também ser aprendido. Por isso comecei a ler sobre metodologias de educação. Nas pesquisas online descobri que o método Montessori se alinhava perfeitamente com a futura mãe que eu iria ser. Comprei o primeiro livro “Montessori from Start” e li de fio a pavio o blog How we Montessori.

Quais foram características que encontraste em Montessori que te apaixonaram?

  • O respeito pelo bebé/criança como indivíduo, com personalidade própria, que é membro participativo da família desde o primeiro dia. Este é para nós o princípio orientador de tudo o que fazemos em família;
  • O aspecto minimalista e ordenado que é proporcionado pelo ambiente montessoriano: materiais naturais, brinquedos sensoriais, cada coisa no seu lugar;
  • Ajuda os pais a compreender o mundo do ponto de vista da criança em cada fase do seu crescimento para que possa tomar as decisões mais adequadas à sua idade;
  • Valoriza o trabalho e as tarefas do quotidiano como parte da aprendizagem e do “brincar”;
  • Ensina os pais a adotarem uma linguagem calma e respeitadora para com os filhos;
  • Desenvolve uma maior auto-estima na criança por capacitá-la a fazer as coisas “sozinha”.

Consegues descrever como é a tua abordagem em casa e como é que Montessori influencia a forma como a tua família vive no dia-a-dia?

Começou desde logo por prepararmos os espaços cá em casa com mobília e equipamentos na cozinha, casa de banho e quarto que estivessem ao total alcance delas e que elas pudessem usar com autonomia. Faz toda a diferença à Ana poder chegar às gavetas da roupa e escolher o que quer vestir, bem como chegar às gavetas da cozinha para ajudar a pôr a mesa.

Com o método Montessori também nos tornamos mais minimalistas com aquilo que precisamos para educar as nossas filhas. Há muita pressão social para se ter muita tralha e tudo isso só condiciona e limita o desenvolvimento natural das crianças.Aprendi também que é importante dar-lhe (à Ana) o tempo necessário para que possa fazer as tarefas ao seu ritmo. Ultimamente, demoro cerca de 1h30min só com a rotina matinal: acordar, tirar pijama, vestir roupa, ir à sanita, lavar a cara, pôr a mesa para o pequeno almoço, preparar a comida, comermos as 3 à mesa e arrumar. Incentivo-a a fazer algumas destas tarefas sozinha outras em colaboração.

Compramos uma torre de aprendizagem para que possa chegar à banca da cozinha e isso fez toda a diferença para o desenvolvimento motor, para a sua curiosidade de explorar comidas diferentes e em sentir-se membro activo da família. É maravilhoso cozinhar com ela! Não acontece a todas as refeições, como é óbvio, mas quando ela vem para a cozinha comigo é uma festa.

Desde cedo que ela tem a sua própria mesa e cadeira que servem para actividades e para refeições. Isto dá-lhe uma grande independência no que toca a aprender a comer. Ainda tenho ainda algumas dificuldades em mantê-la concentrada numa tarefa do início ao fim e voltar a arrumar as coisas no seu sítio é sempre um desafio, mas tenho aprendido que, ao minimizar as distrações e colocando uma única tarefa à sua frente, ela consegue terminá-la. 

Podes partilhar connosco onde é que te inspiras? Algum livro, site, blog que tu recomendarias para ter mais informação sobre boas práticas?

No caso de leituras online, recorro frequentemente ao blog How we Montessori para inspiração, e pouco mais! O livro Montessori from the start é uma espécie de bíblia para aprender sobre como aplicar o método desde nascença até aos 3 anos.  

Recentemente descobri o livro “It’s ok NOT to share” que recomendo vivamente por desafiar as “normas” que habitualmente impomos às crianças, como por exemplo, que não se deve exigir às crianças que partilhem os seus brinquedos e ensina a gerir conflitos e birras que nesta fase com a Ana tem ajudado imenso. Também li o The Danish way of parenting e o Como dizer não às crianças. Todos eles complementam o método Montessori e são abordagens muito úteis.  

Quais os conselhos que podes dar os pais que querem saber mais sobre Montessori em casa mas ainda não tiveram oportunidade de frequentar um curso?

É importante informar-se e ler sobre o método Montessori mas é preciso também refletirmos no tipo de pais que queremos ser. Na minha opinião, Montessori é uma forma de viver a educação das nossas filhas e temos de compreender que logo à nascença as crianças são seres humanos em crescimento e a sua formação enquanto indivíduos está à nossa responsabilidade. Eu e o Pedro fomos criados de forma muito diferente daquilo que praticamos com as nossas filhas e temos muitas vezes que autoavaliar o que fazemos com elas. Montessori só funciona se ambos os pais estiverem alinhados e participativos na educação dos filhos.

Muito Obrigada Isabel pela tua partilha!

Rosana Fernandes

 

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