Uma das primeiras coisas que ouvimos quando começamos a investigar sobre Montessori é a expressão “seguir a criança”. Vou-vos confessar, a primeira vez que ouvi a expressão tive uma explosão de pensamentos. Um misto de admiração: “claro que sim, faz todo o sentido”; com um sentimento de confusão, proveniente daquilo que tinha sido a minha infância: “mas é suposto deixarmos a criança fazer tudo”; e uma pergunta final “como é que eu faço isso de forma equilibrada?”.

No outro dia, estava eu a sair da creche com as minhas filhas, e dei-me conta que demoro imenso tempo a sair. Ora porque temos de vestir o casaco e depois as duas têm de subir à cadeira e à mesa para carregar no botão que permite abrir o portão da rua. Ora voltamos atrás para ir buscar mais maçã e voltamos para se esconderem debaixo da mesa, enquanto finjo que estou à procura delas. Apercebi-me desta realidade quando ouvi uma mãe, que também vinha buscar o filho, dizer “olha as meninas estão a portar-se mal”. E a dúvida assombrou-me: será que lhes faço as vontades todas? Deveria eu impor a minha vontade à delas mais vezes?

Ainda hoje me coloco muitas questões sobre a forma como educo as minhas filhas. A verdade é que as crianças precisam de nós. Cuidamos delas, damos-lhe apoio, proteção e criamos oportunidades para que possam crescer e aprender. Seguir a criança não significa deixá-las fazer tudo e acreditar que vão sempre saber o que é melhor para elas. Pensarmos que as crianças sabem o que é bom para elas só é verdade se tiverem um modelo, os recursos, a oportunidade de praticar e o feedback necessário para adquirir uma competência e explorar o meio envolvente.

Como podemos então seguir a criança?

Bem, o segredo está na observação! Seguir a criança significa reparar naquilo que a atrai e encontrar uma maneira de incluir isso no seu dia a dia. No nosso caso, percebo que elas continuam a adorar escalar e vou-lhes dando essa oportunidade, sejam escadas, os bancos da casa de banho ou a cadeira e a mesa da creche. Sentem necessidade de ordem, alinhar objetos e arrumar o que está fora de sítio. Necessidade de se vestirem sozinhas. E, muitas vezes (a maioria das vezes), isto significa ser paciente.

Ser paciente quando um bebé está a tentar rebolar ou a sentar-se sozinho e não o apressarmos porque queremos que chegue à próxima etapa de desenvolvimento. Ser pacientes quando estão a desenvolver a coordenação óculo-manual e a dominar uma nova competência. Ou ser paciente quando um passeio curto se torna num passeio longo, porque a criança pára para ver a formiga, o pássaro, ou o avião. No entanto, também é importante ensinarmos a criança a saber pedir ajuda, para que tenha liberdade para explorar, mas também para pedir apoio quando necessita, evitando assim os sentimentos de frustração e desamparo.

Em suma, um pouco de paciência agora significa uma criança mais feliz no futuro. Encontrar uma forma de tornar isto acessível agora significa mais independência depois. Um “sim” genuíno agora significa um “não” que, mais tarde, é ouvido e respeitado, porque a criança sabe que pode contar e confiar naquele adulto. E é por isso que a velha máxima segue a criança faz todo o sentido!

Joana Magalhães