Hoje trazemos uma partilha feita por uma uma educadora portuguesa a viver em Londres e a trabalhar numa escola Montessori. Curiosos? Vamos a isso 🙂

EMP: O que nos podes contar sobre ti, sobre a tua família e onde vives?

O meu nome é Mafalda Coelho, sou Portuguesa natural de Lisboa mas vivo em Londres desde 2008.

Sou mãe da Alice (17 anos) e Apolo (11 anos), professora Montessori há 10 anos no Maria Montessori Institute (Londres) e filha, irmã e amiga de várias pessoas extraordinárias.

Fui mãe da Alice aos 16 anos e isso deu-me uma perspectiva diferente da vida e de quem eu sou como pessoa, e de lutar pelos meus objectivos não só por mim mas por ela. Para ser o melhor exemplo como pessoa e mulher possível. Tem sido uma aventura mas ajudou-me a clarificar as minhas expectativas, reflectir acerca de mim própria, tentar sempre o meu melhor e nunca desistir.

Quando o Apolo nasceu, eu e o meu marido tínhamos apenas 22 anos e o nascimento do Apolo ajudou-nos a crescer e a ter uma percepção diferente da vida. O Apolo nasceu com uma doença rara (Congenital Epimerase Deficiency Type Unknown), passou muito tempo no hospital, ninguém sabia ao certo o que se passava, e foram anos muito difíceis. Quando o Apolo tinha 3 anos descobrimos que ele é surdo profundo mas entretanto ele já tem implantes cocleares, com muita terapia e apoio ele tem crescido feliz e bem. Mas não entrando em muitos detalhes, foram anos em que aprendemos muito sobre nós próprios. Tornou-nos mais unidos como família e ajudou-nos a ser melhores pais, a ser pacientes, a observar e respeitar a criança por quem ela é.

Também fomos os primeiros a sermos pais do nosso núcleo de amigos, o que tem sido bastante interessante.

EMP: Quais as principais diferenças que encontraste em UK, no que diz respeito à parentalidade?

Devo admitir que foi bastante diferente do que imaginava. Na altura em que mudamos para Londres a Alice tinha 4 anos e ela foi aluna numa escola pública normal.

Em termos de escolaridade é bastante diferente, a escola começa aos 4 anos e é obrigatória a partir dos 5 anos. As expectativas de aprendizagem são maiores, não é preciso comprar materiais ou livros porque as escolas e as crianças não chumbam até aos GCSE (exames globais aos 16 anos).

Em termos de parentalidade, a maior diferença será no facto de Londres ser tão multicultural que aprendi que existem várias maneiras de resolver problemas, a ser menos crítica comigo própria e com os outros e que no fundo todos os pais têm os mesmos problemas e dúvidas. No fundo, a maior parte dos pais (independentemente da cultura, religião, cor, sexualidade) só querem fazer o melhor possível para os seus filhos.

EMP:  Como e quando é que conheceste Montessori?

A parte mais engraçada da minha descoberta e da minha aventura Montessori é que nunca me imaginei a trabalhar com crianças. Eu terminei o meu curso de Técnica Psicossocial em Lisboa e tive oportunidade de trabalhar com crianças entre os 5 e os 16 anos num estágio no último ano. O meu trabalho era focado em observar necessidades sociais e criar projecto de intervenção durante 1 ano lectivo, eu queria trabalhar com a população adolescente mas as crianças eram mais assíduas e acabei por trabalhar mais com os mais novos. O meu projecto era ajudar a comunidade cigana e afro-portuguesa a criar laços de amizade e criarem projectos juntos e a transformação num ano foi incrível.

Entretanto mudei-me para Londres, não consegui trabalho na área social e quando a minha licença de maternidade acabou tive tempo para refletir. Devido à minha experiência com crianças achei que gostaria de começar uma formação em educação. A Alice entretanto tinha tido uma má experiência na escola, com bullying, e decidimos educá-la em casa até encontrarmos algo melhor. Por essa razão e após refletir no sistema de educação normal (Português ou UK) sabia que não iria ser esse o meu rumo. Então, investiguei métodos de educação alternativos, especialmente Waldorf- Steiner e Montessori.

EMP: Quais foram características que encontraste em Montessori que te apaixonaram?

Quando li o livro Segredo da Infância (Secret of Childhood) fiquei incrédula. Tudo o que li era exactamente como eu estava a educar a minha filha e o princípio de respeito mútuo, do potencial da criança e fez todo o sentindo para mim. Lembro me de sentir-me super entusiasmada e aliviada por ter encontrado algo que era tão semelhante à perspectiva de vida que eu tinha não só como mãe mas também como ser humano na nossa sociedade. Tantas vezes via pessoas tratarem crianças como se elas não tivessem valor ou importância. Encontrei duas escolas que ofereciam formação em Londres, e felizmente escolhi a que me ofereceu diploma AMI (porque achei que desta maneira tinha mais possibilidades de trabalhar em qualquer parte do mundo e devido ao facto de ter sido criada pela Maria Montessori e o seu filho). Comecei o curso em Setembro desse ano e trabalho na mesma organização (Maria Montessori Institute) desde 2011.

EMP: Consegues descrever como é que Montessori influencia a forma como a tua família/ tu vives no dia-a-dia?

Acho que Montessori não me influencia a mim ou a minha família de uma maneira em que eu tenha que me esforçar ou pensar como alterar a minha vida para seguir o método. Acredito que o método Montessori me ajudou a ultrapassar fases como mãe e como professora, porque me ajudou a querer compreender o desenvolvimento natural do ser humano. Quando enfrentava questões da minha filha com 7 anos ou o porquê do meu filho ter birras no meio do supermercado, ter este conceito que todos temos um processo natural de crescimento e em cada fase da nossa vida precisamos de um ambiente preparado, um adulto preparado e para isso temos de compreender o que se está a passar com a outra pessoa, em que fase eles estão, que apoio precisam e qual e o nosso papel para ajudá-los a atingirem o seu potencial.

Pessoalmente a melhor parte é de reflexão pessoal, observar os outros e apoiá-los em cada fase da sua vida. Não ser sobre o que eu quero ou que expectativas tenho para os meus filhos ou alunos mas quem eu sou na vida deles e o impacto que eu vou causar.

EMP: Podes partilhar connosco onde é que te inspiras? Algum livro, site, blog que tu recomendarias para ter mais informação sobre Montessori?

A minha inspiração vem do meu trabalho com as crianças, diariamente sou surpreendida com perguntas, com a maneira com cada indivíduo explora o ambiente que os rodeia, a maneira como eles veem o mundo inspira-me para fazer melhor e dar-lhes mais. Também trabalho com adultos do nosso Training Center, fazem estágio nas nossas escolas e eu gosto de ajudar na formação de futuros professores/as Montessori.

O meu livro preferido é o London Lectures 1946, basicamente é o curso que tirei mas pelas palavras da Maria Montessori. Foram as últimas aulas que ela deu em Londres, é super simples de ler e abrange vários tópicos. Uso-o com frequência para explicar conceitos aos pais mas também para mim própria.

Uso aidtolife.org para ajudar os pais que começam na minha escola.

E mais recentemente tenho usado Instagram onde existem várias plataformas e pessoas, algumas das quais eu sigo. No entanto existe muita informação com a qual eu não concordo pessoalmente por isso ainda não tenho nenhuma recomendação específica.

EMP: Quais os conselhos que podes dar os pais que querem saber mais sobre Montessori em casa mas ainda não tiveram oportunidade de frequentar um curso? Por onde devem começar?

Montessori não é uma marca registada e no mundo em que vivemos existe muita informação, o que pode deixar os pais confusos e em stress. Por isso eu recomendo procurarem escola registadas com AMI (Association Montessori International), lerem sobre o desenvolvimento da criança (para compreenderem qual é o plano do desenvolvimento no qual eles estão), falarem com outros pais/profissionais. As pessoas isolam-se muito, tem vergonha/medo do que fazem e se estão a falhar, sendo mais fácil culpar as crianças do comportamento que têm do que admitirem que não sabem o que fazer. Uma grande parte do meu trabalho envolve criar uma comunidade forte entre os pais e a escola. Quando procurarem uma escola, visitem a escola, falem com os/as professores/as e façam perguntas sobre como a escola apoia o desenvolvimento total da criança (não só academicamente mas a nível pessoal e comunitário). Porque educação não é só aprender a ler e a escrever mas sim um trabalho para promover o bem estar físico, mental e académico de cada indivíduo. O que eu mais valorizo neste método de ensino é a Educação para Paz, e eu acredito que para construirmos um mundo melhor temos de apostar no princípio de vida das próximas gerações.

 O primeiro passo é refletir, pedir ajuda e tentar alternativas. Observar a criança e ver o que não resulta, o que resulta e não desistir.

Obrigada Mafalda pela tua disponibilidade!

EMP

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